• Dawton Valentim

Como você identifica uma notícia?

Atualizado: 23 de abr.

A resposta mais curta é: porque você já viu outras notícias antes. As discussões sobre o conceito de gênero textual são antigas, mas ganharam mais força, no Brasil, nos anos 2000. Boa parte das definições de gênero entendem a recorrência de informações como principal característica.


Ou seja, para que um conjunto de textos seja compreendido como a manifestação de um gênero textual, é preciso que tais textos possuam traços comuns, “padrões” que recorrem, que se repetem. Nesse sentido, você sabe que a imagem deste post é uma notícia porque já viu outras notícias e internalizou algumas recorrências. Isto é, você tem uma imagem mental, um frame, de como esse gênero pode ser, de como funciona e do que faz.


Note que algumas coisas se repetem: verbos no presente do indicativo, na manchete, ainda que se trate de um fato já ocorrido; subtítulo que dá mais contexto, escrito no passado; identificação do meio de comunicação em que a notícia foi publicada, assim como da data da publicação e indicação de atualização. Outros elementos, no corpo da notícia, corresponderão a informações recorrentes, como descrição do fato notificado, indicação de lugar, pessoas envolvidas e do período do acontecimento. Esses elementos constituem o que conhecemos como pirâmide invertida.


Quer dizer que gênero não muda?


Não, gêneros textuais mudam influenciados por vários fatores, como o tempo, a sociedade, o suporte, os objetivos comunicativos e as práticas sociais realizadas por eles. Eles são, como disse o russo Bakhtin, relativamente estáveis. Em outras palavras, gêneros textuais não são tão fixos que não possam mudar nem tão fluidos que não possuam padrões de recorrência.


Isso permite perceber alguns gêneros que estão, hoje, muito diferentes de como já foram no passado, como a crônica ou a carta pessoal. Ao mesmo tempo, é possível notar como alguns gêneros textuais mudam com menos facilidade. Mas isso é assunto para outra conversa.


Um dos maiores desafios do ensino de gênero textual na escola é justamente a complexidade própria do conceito. Gêneros textuais medeiam práticas sociais, realizam objetivos comunicativos e configuram esferas da atividade humana, aspectos quase nunca possíveis de serem reproduzidos na maioria das salas de aula do país. Como escrever uma notícia sem que seja apurando um fato? Sem que seja comunicando um acontecimento real a um público real? É aí que surge o “simulacro de gênero textual“, ou seja, a simulação de uma situação comunicativa real para a realização de gêneros.


Com a ajuda da tecnologia, quando ela é acessível, esse desafio, no entanto, fica um pouco menos e surgem os jornais on-line para notícias e reportagens, os blogs para resumos e resenhas, o Twitter para micronarrativas.


Referências


BAKHTIN, M. M. Os gêneros do discurso. In: _____. Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 261-306.

ROJO, R. Esferas ou campos de atividade humana. Glossário Ceale, 2021. Disponível em: <http://www.ceale.fae.ufmg.br/app/webroot/glossarioceale/verbetes/esferas-ou-campos-de-atividade-humana&gt;. Acesso em: 12 de abr. 2021.

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